Um mês depois do fatídico 7×1, Felipão está de volta ao Grêmio, o único lugar onde ele poderia trabalhar sem a pressão do fracasso da Seleção. Começou a recuperar o respeito logo em seguida, quando chegou a liderar o Brasileirão em 2014, mas acabou no meio da tabela. Durou até a segunda rodada do Brasileirão de 2015, depois de perder o Gauchão. O esquema usado na última partida era o mesmo da Seleção, com um centroavante, três meias e dois volantes, em vez do 4-4-2 clássico. Já podemos ver alguns nomes que vão se destacar, mas fora de posição.

Para substituir Felipão, veio outro que foi mencionado no texto anterior, o ex-lateral Roger, agora Roger Machado. Veio com pinta de estudioso, depois de vários estágios, incluindo no Grêmio, e alguns trabalhos em times de menor expressão. Transformou o time e baseou toda a estratégia em um jogo de posse de bola e passes rápidos. De novo, o Grêmio chegou a liderar o Brasileirão, mas termina em terceiro, classificado para a Libertadores do ano seguinte. Em 2016, o Grêmio foi eliminado na semifinal do Gauchão pelo Juventude e nas oitavas da Libertadores, pelo Rosario Central. Foi o último jogo do Roger como treinador. Aproveitei que meu pai estava aqui numa viagem de trabalho e assisti esse jogo com ele num quarto de hotel. Já era possível ver que o time tinha uma pegada diferente, que valorizava o passe, mas faltava qualidade. Passes rápidos, movimentação para receber a bola, mas muitos e muitos passes errados. Ainda tinha alguma coisa a ser ajustada, mas não deu pro Roger. O esquema desse jogo já é muito parecido com o que vamos ver logo mais. Várias peças já encaixadas.

O escolhido para substituir Roger foi Renato Gaúcho. Uma das maiores figuras, se não a maior, da história do Grêmio, retornou para a terceira passagem como treinador. Em 2010, levantou o time da zona de rebaixamento para o quarto lugar no Brasileirão. Em 2013, foi vice-campeão. Ou seja, as expectativas eram grandes, o que não aconteceu no campeonato nacional… Já na Copa do Brasil, o desempenho foi fulminante, ou quase.
Roger Machado saiu depois do jogo de ida contra o Atlético-PR, onde o Grêmio ganhou por 1×0 fora de casa. Na volta, Renato estava na casamata e viu seu time ser derrotado e Marcelo Grohe se destacar nas cobranças de pênalti. Depois veio o Palmeiras, com uma vitória em casa e um empate fora. E o time foi se encaixando e se fixou até a final. Contra o Cruzeiro, nas semi-finais, o time já tinha seu estilo definido e impôs o seu jogo mesmo no Mineirão, com a vitória de 2×0. Na volta, dominou o campo e o empate em 0x0 foi mantido com tranquilidade.
O Grêmio voltou ao Mineirão para encarar o Atlético-MG na grande final. 3×1 para o tricolor, com um show de bola, com destaque para a partidaça de Pedro Rocha, que foi expulso no final e chorou nos corredores do estádio ao perceber que estaria fora do último jogo. Da mesma maneira que contra o Cruzeiro, a volta na Arena foi do jeito que o Grêmio quis, com um empate em 1×1. Bolaños abriu o placar aos 44 minutos do segundo tempo e Cazares empatou com um golaço do meio campo. Sem desvalorizar a qualidade dele, mas fazer gol de longe quando o goleiro já está comemorando o título com a torcida é bem mais fácil.
Eu nunca tinha visto um time brasileiro jogando como o Grêmio estava jogando. Não só impedia os outros de jogar como conseguia impor o seu estilo, sem se importar se estava na Arena ou longe de casa. Voltando ao início do texto, não era um Brasil x Alemanha, mas me lembrou de Grêmio x Boca Juniors, na final da Libertadores de 2007. Era preciso fazer 4×0 para se recuperar da primeira partida, mas com 5 minutos dava para ver que não ia acontecer. O Boca fez o seu jogo e foi mais um 3×0 tranquilo para eles, com grandes chances de ter sido mais.
Se o time seguia um esquema parecido desde o Felipão, passando pelo Roger e a importância do passe, o que o Renato fez de tão diferente? Primeiro, vamos comparar a escalação do primeiro jogo da final (para valorizar o Pedro Rocha, que ele merece) com o time da Libertadores e também com o meu texto anterior.

Houve cinco mudanças em relação ao time eliminado no meio do ano. Duas delas foram por transferências: a chegada do Kannemann e a saída do Giuliano. A entrada do zagueiro era o objetivo da sua contratação, ser o cara do chutão ao lado do habilidoso Geromel. Para o lugar do meia, Ramiro, que estava como lateral direito, foi adiantado, e Edílson entrou na vaga do quarteto defensivo. Também trocamos de Marcelo na lateral esquerda e o ponta esquerda, com a saída de Bolaños e a entrada de Pedro Rocha. Em teoria, trocamos um meia-atacante por um volante/lateral e entrou um lateral com mais propensão ofensiva.
O Grêmio estava bem servido de goleiro, com Grohe dando segurança no gol nos últimos anos. A dupla de zagueiros tinha um botinudo e um que jogava de cabeça erguida. Um lateral defensivo, que agora está até jogando como zagueiro, e um ofensivo, cobrador de falta. No meio, tem um volante mais defensivo, um meia que virou segundo volante, um volante avançado pela direita e o camisa 10 jogando centralizado. Um ponta-esquerda e um jogador que tem liberdade para fazer o quiser, jogando de frente para o gol. Nenhuma grande transformação do time do Roger. Então, o que explica a evolução do time?
Eu tenho uma teoria e ainda não encontrei um argumento contrário, logo continuo acreditando nela. O Grêmio montou um plantel de jogadores inteligentes, o que permitiu ao time ter um esquema de jogo dinâmico. Eu enxergo que existem duas formações bem distintas, uma para a situação sem a bola e outra com a bola.
Com a posse de bola, é um time de passes rápidos e movimentação. Se baseia em manter a bola em movimento, com triangulações e aproximação entre os jogadores. Aquele chutão para frente agora só acontece na disputa do zagueiro com o atacante, não como solução para a saída de bola. O cruzamento na área acontece primariamente na bola parada; durante o jogo, não se deve ficar cruzando aleatoriamente procurando um atacante plantado perto do gol. Me lembro de um momento em que o Grêmio estava perdendo, era final de jogo e o Marcelo Grohe pediu para subir e tentar cabecear. O Renato mandou voltar pro lugar dele, o time não deve jogar no desespero. O conceito é movimentar a bola até chegar na frente do gol. Sem um centroavante fixo, com dois jogadores rápidos e com frieza na frente do goleiro adversário.

Mas a mágica realmente acontece sem a bola. Depois de anos vendo times brasileiros sendo eliminados da Libertadores por argentinos, finalmente vi alguém implementando um sistema defensivo com duas linhas de quatro jogadores. E só funcionou porque tinha gente inteligente dentro de campo. O posicionamento é quase o que seria óbvio, com a primeira linha composta pelos dois zagueiros no meio e os laterais fechando os lados. Na segunda, o meia direita recuado, os dois volantes no meio e o ponta esquerda bem recuado, em vez do camisa 10. Como esse é o Douglas, ele nunca teria condições físicas de fazer a marcação e voltar pro ataque, mas o Pedro Rocha é novo e rápido. Com isso, o atacante central e o meia de criação dão aquele primeiro combate, só cercando, tentando roubar uma bola com o time adversário aberto, e dando tempo para as outras linhas se organizarem. Tem que haver coordenação entre elas, porque se alguém da linha de trás tem que se adiantar o correspondente da segunda volta para preencher aquele espaço.

Sempre visualizei esse esquema do Grêmio como um conjunto de arco e flecha. O time inteiro está tensionado na defesa, fechando todos os espaços e procurando recuperar a bola. Pegando a bola, o destino é óbvio: manda pro camisa 10. Douglas, o maestro pifador. Enquanto isso, o atacante está correndo para se livrar dos zagueiros e receber a bola de frente para o gol. Contra-ataque mortal que resolveu muitos jogos. Podem ser outros jogadores, mas a ideia é essa. Nos últimos momentos da primeira partida da final da Copa do Brasil, foi Geromel levando a bola para o gol do Éverton.

No ano seguinte, tivemos a perda do Douglas por lesão e a solução encontrada foi recuar o Luan para essa posição e colocar um atacante mais de área, caso do Barrios e, depois, Jael. Tivemos a venda do Pedro Rocha, mas o substituto Fernandinho já estava no plantel, e também de Walace, substituído por Jaílson. No lugar de Maicon, machucado, surgiu Arthur. Cortez assumiu a lateral no lugar de Marcelo Oliveira. Mas a dinâmica do time se manteve igual. E deu certo, com a terceira Libertadores conquistada, principalmente devido ao talento do Luan, tanto que foi eleito o melhor jogador da América e foi premiado com um golaço na final.

Acredito que o ano de 2018 deixou a desejar porque fugiu desse esquema. A base do time continua, com muitos passes, defesa robusta e chegadas fortes ao ataque, mas a dinâmica enfraqueceu. Continua sendo elogiado como um dos melhores times do Brasil, o mais legal de se assistir. Mas acho que, apesar de ter feito boas contratações, elas não se encaixam no esquema que deu tão certo. Mas essa análise fica para a próxima, porque esse texto já ficou longo demais!
(escrito durante Chapecoense x Criciúma, pela Copa do Brasil, Boa Esporte x Atlético-MG, pelo Mineiro, e Brasil x Argentina, pelo Sul-Americano sub-17)














