Consequências da mudança de plantel

Salvem o Luan!

Renato Gaúcho conseguiu encaixar um esquema de jogo diferenciado, com base numa estratégia de passes rápidos e muita movimentação concebida pelo técnico anterior, Roger Machado. O avanço foi conseguir acrescentar agressividade a um time que já se distanciava do que era praticado no Brasil. O modelo de jogo proposto inicialmente pelo Roger em 2015 só chegou a outro time da primeira divisão através do Fernando Diniz em 2018, no Athletico-PR, e que teve êxito no final do ano com a conquista da Copa Sul-Americana, já sob o comando do Tiago Nunes. Agora em 2109 Fernando Diniz tenta repetir o mesmo esquema no Fluminense.

Final de 2017

No texto anterior, vimos como o time do Grêmio encaixou em 2016 com duas linhas de quatro, com um ponta fechando a segunda linha, mais um armador e um jogador rápido e finalizador. Com a lesão de Douglas em 2017, Luan foi recuado e desempenhou com louvor essa função, com Lucas Barrios fazendo a função de centroavante. Com a saída de Pedro Rocha, Fernandinho assumiu a função de ser o cara que corre para o ataque e volta para fechar o lado. No final do ano, o armador acabou com mais gols que o atacante, e a decisão do Mundial foi a última partida de Barrios.

Plantel 2017

Para 2018, o esquema se manteve, agora com Jael como centroavante e Éverton fazendo a ponta, com Luan ainda jogando como armador. Edílson deu lugar ao revezamento entre Léo Moura e Léo Gomes. Os dois volantes da final de 2017 foram vendidos no meio do ano e foram substituídos por Michel, mais recuado, e Maicon. Comparando a lista dos inscritos na Libertadores nesses dois anos, vemos que perdemos um zagueiro, um atacante e dois volantes. O time terminou com sete meias, o que me parece uma clara preocupação com a escolha de um substituto para o Luan, que começou a sentir lesões durante o ano.

Plantel 2018

Toda essa preocupação se mostrou muito acertada, mas infelizmente as opções disponíveis não foram suficientes para conseguir repetir o título. O esquema de jogo estava tão bem acertado que, mesmo com as lesões de Luan e Éverton, e a substituição por Cícero, um jogador que hoje está jogando de segundo volante, e Alisson, conseguiu derrotar o River Plate na Argentina. No jogo de volta, com a suspensão de Kannemann, o Grêmio escalou Paulo Miranda na zaga. Com esse time desfalcado, o lateral Léo Gomes fez o gol que estava levando a mais uma final, até que o zagueiro sentiu e teve que ser substituído, aos 26 minutos do segundo tempo.  

Semifinal 2018

Ah, Bressan… Não vou nem me dignar a escrever, vou copiar um trecho da página dele na Wikipédia: “Perdeu espaço no clube após ter sido expulso e provocar um pênalti que ocasionou a eliminação do time na Libertadores 2018, em jogo contra o River Plate Football Club, recebendo a alcunha de ‘O Culpado’ pela imprensa esportiva e por grande parte da torcida, que pediu sua dispensa do clube. O fato reacendeu na memória dos gremistas outra falha de Bressan que culminou com outra eliminação do time, na Libertadores 2013. Nesta oportunidade, em partida disputada contra o Club Independiente Santa Fe, o zagueiro levou um drible entre as pernas, permitindo o gol do clube colombiano.” Foi nessa hora que falhou a estratégia de ter tirado um zagueiro do plantel. E também de insistir em um jogador que deixou a desejar em diversas situações.

Ok, respirei fundo, voltei. Faltou planejar as opções para suprir as lesões e suspensões que naturalmente acontecem durante os campeonatos. Mesmo com esses buracos na montagem do time, chegaram até uma semifinal e estavam indo para a final até os 43 minutos do segundo tempo da segunda partida. A grande notícia de 2018 foi o crescimento de Éverton, o que rendeu até convocações para a Seleção. Acredito que isso aconteceu principalmente pela dificuldade do Jael em fazer gols, então o ponta virou a alternativa mais eficiente para buscar a jogada de ataque.

Chegamos agora a 2019. Do time considerado ideal do ano passado, tivemos a saída de Marcelo Grohe, que foi garantir a aposentadoria no mundo árabe. Para o seu lugar, Paulo Victor já estava jogando com o time alternativo no Brasileirão. Saiu Ramiro, que foi para o Corinthians, e Marinho ocupou aquele espaço. Jael se foi para o Japão e chegaram Felipe Vizeu e depois Diego Tardelli. Esse time está destruindo no Gauchão, com apenas um gol sofrido após a primeira partida das semifinais, mas sabemos que os campeonatos estaduais não são um teste de verdade. Esse mesmo time conseguiu um empate fora de casa na primeira partida da Libertadores e perdeu em casa, com a formação que parece ser a definitiva (talvez trocando o Vizeu pelo Tardelli).

Contra o Libertad

Mas o que está acontecendo? Qual é o motivo do mau rendimento do time nesses dois jogos da Libertadores? Se o time com desfalques foi suficiente para chegar numa semifinal continental em 2018, não precisamos de muito para sobrar no Gauchão. Novamente, eu tenho uma teoria.

Por mais que o Éverton seja considerado um dos melhores jogadores em atividade no Brasil, todos reconhecem em Luan o centro técnico do time. Acredito que o time atual está apagando o que ele tem de melhor. Em 2016, na conquista da Copa do Brasil, ele era a referência de ataque, recebendo a bola de frente para o goleiro e tendo frieza para finalizar. Em 2017, para compensar a falta do Douglas, Luan foi recuado e passou a ter um atacante à sua frente, o que continuou em 2018.

Melhor jogador da Libertadores 2017 e melhor jogador da América do Sul

Chegamos agora a 2019. O Grêmio contratou Vizeu e Tardelli para a posição do atacante mais avançado.  Ótimas contratações e vai ser uma disputa interessante para ver quem vai ser titular. O problema aconteceu com a segunda linha da defesa. Em 2016 e 2017, Ramiro fechava o lado direito, mas com as características de um ex-volante/lateral. Pedro Rocha e depois Fernandinho fechavam o lado esquerdo, aproveitando a capacidade de correr desesperadamente para atacar e defender. Com a explosão do Éverton, parece ser um crime fazer com que ele tenha que voltar para marcar um lateral. Do outro lado, Marinho foi contratado para correr e encarar de frente os zagueiros. Assim, a segunda linha de quatro não tem a mesma compactação de anos anteriores.

Com essas mudanças, Luan passou de homem de frente para armador, e agora passou a ter três jogadores mais adiantados do que ele. Isso poderia ser bom se ele realmente fosse um camisa 10 e ele jogasse para armar para os outros, mas o papel dele sempre foi de jogar solto e abrir espaços. Com esses três atacantes, mais jogadores do time adversário estão entre Luan e o gol. Com toda essa gente no meio, o jogo do Luan fica muito mais discreto.

O Grêmio quase fez uma troca que eu consideraria um crime, mas que talvez corrigisse o time. Se ele fosse trocado pelo Thiago Neves, haveria um armador para suprir os outros atacantes, mas a linha de defesa continuaria com problemas. Na minha opinião, Marinho deveria ser substituído por um jogador com uma maior tendência defensiva. Não um volante, mas com certeza não deveria ser um ponta.

Plantel 2019

Quanto aos inscritos em 2019, continuamos com apenas quatro zagueiros, o que já se mostrou temerário, mesmo que o Bressan tenha saído. Precisamos de pelo menos mais dois, uma vez que o Marcelo Oliveira se machucou. O foco desse ano parece ser o ataque, o que parece ser completamente distinto do time que deu certo em 2016/17. E o Grêmio continua sem um jogador para ser o reserva de Luan. Talvez a melhor opção seja adiantar Maicon, mas isso desloca o problema mais para trás.

Um possível dilema caso se encontre um armador é que talvez o Luan devesse voltar a ser a referência lá na frente… Mas o que fazer com todos esses atacantes?

(escrito durante Internacional x River Plate e Flamengo x Peñarol, pela Libertadores)

Jogadores inteligentes e táticas dinâmicas

Te ajeita que esse é longo.

Um mês depois do fatídico 7×1, Felipão está de volta ao Grêmio, o único lugar onde ele poderia trabalhar sem a pressão do fracasso da Seleção. Começou a recuperar o respeito logo em seguida, quando chegou a liderar o Brasileirão em 2014, mas acabou no meio da tabela. Durou até a segunda rodada do Brasileirão de 2015, depois de perder o Gauchão. O esquema usado na última partida era o mesmo da Seleção, com um centroavante, três meias e dois volantes, em vez do 4-4-2 clássico. Já podemos ver alguns nomes que vão se destacar, mas fora de posição.

Último jogo do Felipão

Para substituir Felipão, veio outro que foi mencionado no texto anterior, o ex-lateral Roger, agora Roger Machado. Veio com pinta de estudioso, depois de vários estágios, incluindo no Grêmio, e alguns trabalhos em times de menor expressão. Transformou o time e baseou toda a estratégia em um jogo de posse de bola e passes rápidos. De novo, o Grêmio chegou a liderar o Brasileirão, mas termina em terceiro, classificado para a Libertadores do ano seguinte. Em 2016, o Grêmio foi eliminado na semifinal do Gauchão pelo Juventude e nas oitavas da Libertadores, pelo Rosario Central. Foi o último jogo do Roger como treinador. Aproveitei que meu pai estava aqui numa viagem de trabalho e assisti esse jogo com ele num quarto de hotel. Já era possível ver que o time tinha uma pegada diferente, que valorizava o passe, mas faltava qualidade. Passes rápidos, movimentação para receber a bola, mas muitos e muitos passes errados. Ainda tinha alguma coisa a ser ajustada, mas não deu pro Roger. O esquema desse jogo já é muito parecido com o que vamos ver logo mais. Várias peças já encaixadas.

Último time do Roger

O escolhido para substituir Roger foi Renato Gaúcho. Uma das maiores figuras, se não a maior, da história do Grêmio, retornou para a terceira passagem como treinador. Em 2010, levantou o time da zona de rebaixamento para o quarto lugar no Brasileirão. Em 2013, foi vice-campeão.  Ou seja, as expectativas eram grandes, o que não aconteceu no campeonato nacional… Já na Copa do Brasil, o desempenho foi fulminante, ou quase.

Roger Machado saiu depois do jogo de ida contra o Atlético-PR, onde o Grêmio ganhou por 1×0 fora de casa. Na volta, Renato estava na casamata e viu seu time ser derrotado e Marcelo Grohe se destacar nas cobranças de pênalti. Depois veio o Palmeiras, com uma vitória em casa e um empate fora. E o time foi se encaixando e se fixou até a final. Contra o Cruzeiro, nas semi-finais, o time já tinha seu estilo definido e impôs o seu jogo mesmo no Mineirão, com a vitória de 2×0. Na volta, dominou o campo e o empate em 0x0 foi mantido com tranquilidade.

O Grêmio voltou ao Mineirão para encarar o Atlético-MG na grande final. 3×1 para o tricolor, com um show de bola, com destaque para a partidaça de Pedro Rocha, que foi expulso no final e chorou nos corredores do estádio ao perceber que estaria fora do último jogo. Da mesma maneira que contra o Cruzeiro, a volta na Arena foi do jeito que o Grêmio quis, com um empate em 1×1. Bolaños abriu o placar aos 44 minutos do segundo tempo e Cazares empatou com um golaço do meio campo. Sem desvalorizar a qualidade dele, mas fazer gol de longe quando o goleiro já está comemorando o título com a torcida é bem mais fácil.

Eu nunca tinha visto um time brasileiro jogando como o Grêmio estava jogando. Não só impedia os outros de jogar como conseguia impor o seu estilo, sem se importar se estava na Arena ou longe de casa. Voltando ao início do texto, não era um Brasil x Alemanha, mas me lembrou de Grêmio x Boca Juniors, na final da Libertadores de 2007. Era preciso fazer 4×0 para se recuperar da primeira partida, mas com 5 minutos dava para ver que não ia acontecer. O Boca fez o seu jogo e foi mais um 3×0 tranquilo para eles, com grandes chances de ter sido mais.

Se o time seguia um esquema parecido desde o Felipão, passando pelo Roger e a importância do passe, o que o Renato fez de tão diferente? Primeiro, vamos comparar a escalação do primeiro jogo da final (para valorizar o Pedro Rocha, que ele merece) com o time da Libertadores e também com o meu texto anterior.

Atlético-MG 1 x 3 Grêmio

Houve cinco mudanças em relação ao time eliminado no meio do ano. Duas delas foram por transferências: a chegada do Kannemann e a saída do Giuliano. A entrada do zagueiro era o objetivo da sua contratação, ser o cara do chutão ao lado do habilidoso Geromel. Para o lugar do meia, Ramiro, que estava como lateral direito, foi adiantado, e Edílson entrou na vaga do quarteto defensivo. Também trocamos de Marcelo na lateral esquerda e o ponta esquerda, com a saída de Bolaños e a entrada de Pedro Rocha. Em teoria, trocamos um meia-atacante por um volante/lateral e entrou um lateral com mais propensão ofensiva.

O Grêmio estava bem servido de goleiro, com Grohe dando segurança no gol nos últimos anos. A dupla de zagueiros tinha um botinudo e um que jogava de cabeça erguida. Um lateral defensivo, que agora está até jogando como zagueiro, e um ofensivo, cobrador de falta. No meio, tem um volante mais defensivo, um meia que virou segundo volante, um volante avançado pela direita e o camisa 10 jogando centralizado. Um ponta-esquerda e um jogador que tem liberdade para fazer o quiser, jogando de frente para o gol. Nenhuma grande transformação do time do Roger. Então, o que explica a evolução do time?

Eu tenho uma teoria e ainda não encontrei um argumento contrário, logo continuo acreditando nela. O Grêmio montou um plantel de jogadores inteligentes, o que permitiu ao time ter um esquema de jogo dinâmico. Eu enxergo que existem duas formações bem distintas, uma para a situação sem a bola e outra com a bola.

Com a posse de bola, é um time de passes rápidos e movimentação. Se baseia em manter a bola em movimento, com triangulações e aproximação entre os jogadores. Aquele chutão para frente agora só acontece na disputa do zagueiro com o atacante, não como solução para a saída de bola. O cruzamento na área acontece primariamente na bola parada; durante o jogo, não se deve ficar cruzando aleatoriamente procurando um atacante plantado perto do gol. Me lembro de um momento em que o Grêmio estava perdendo, era final de jogo e o Marcelo Grohe pediu para subir e tentar cabecear. O Renato mandou voltar pro lugar dele, o time não deve jogar no desespero. O conceito é movimentar a bola até chegar na frente do gol. Sem um centroavante fixo, com dois jogadores rápidos e com frieza na frente do goleiro adversário.

Com a posse de bola, time vai pra frente

Mas a mágica realmente acontece sem a bola. Depois de anos vendo times brasileiros sendo eliminados da Libertadores por argentinos, finalmente vi alguém implementando um sistema defensivo com duas linhas de quatro jogadores. E só funcionou porque tinha gente inteligente dentro de campo. O posicionamento é quase o que seria óbvio, com a primeira linha composta pelos dois zagueiros no meio e os laterais fechando os lados. Na segunda, o meia direita recuado, os dois volantes no meio e o ponta esquerda bem recuado, em vez do camisa 10. Como esse é o Douglas, ele nunca teria condições físicas de fazer a marcação e voltar pro ataque, mas o Pedro Rocha é novo e rápido. Com isso, o atacante central e o meia de criação dão aquele primeiro combate, só cercando, tentando roubar uma bola com o time adversário aberto, e dando tempo para as outras linhas se organizarem. Tem que haver coordenação entre elas, porque se alguém da linha de trás tem que se adiantar o correspondente da segunda volta para preencher aquele espaço.

Duas linhas de quatro

Sempre visualizei esse esquema do Grêmio como um conjunto de arco e flecha. O time inteiro está tensionado na defesa, fechando todos os espaços e procurando recuperar a bola. Pegando a bola, o destino é óbvio: manda pro camisa 10. Douglas, o maestro pifador. Enquanto isso, o atacante está correndo para se livrar dos zagueiros e receber a bola de frente para o gol. Contra-ataque mortal que resolveu muitos jogos. Podem ser outros jogadores, mas a ideia é essa. Nos últimos momentos da primeira partida da final da Copa do Brasil, foi Geromel levando a bola para o gol do Éverton.

Douglas e Luan, arco e flecha

No ano seguinte, tivemos a perda do Douglas por lesão e a solução encontrada foi recuar o Luan para essa posição e colocar um atacante mais de área, caso do Barrios e, depois, Jael. Tivemos a venda do Pedro Rocha, mas o substituto Fernandinho já estava no plantel, e também de Walace, substituído por Jaílson. No lugar de Maicon, machucado, surgiu Arthur. Cortez assumiu a lateral no lugar de Marcelo Oliveira. Mas a dinâmica do time se manteve igual. E deu certo, com a terceira Libertadores conquistada, principalmente devido ao talento do Luan, tanto que foi eleito o melhor jogador da América e foi premiado com um golaço na final.

Lanus 1 x 2 Grêmio

Acredito que o ano de 2018 deixou a desejar porque fugiu desse esquema. A base do time continua, com muitos passes, defesa robusta e chegadas fortes ao ataque, mas a dinâmica enfraqueceu. Continua sendo elogiado como um dos melhores times do Brasil, o mais legal de se assistir. Mas acho que, apesar de ter feito boas contratações, elas não se encaixam no esquema que deu tão certo. Mas essa análise fica para a próxima, porque esse texto já ficou longo demais!

(escrito durante Chapecoense x Criciúma, pela Copa do Brasil, Boa Esporte x Atlético-MG, pelo Mineiro, e Brasil x Argentina, pelo Sul-Americano sub-17)

Tudo o que eu sei de futebol aprendi com o Felipão

1 Danrlei; 2 Arce, 3 Rivarola,  4 Adilson, 6 Roger; 5 Dinho, 8 Luis Carlos Goiano, 10 Arilson, 11 Carlos Miguel; 7 Paulo Nunes, 9 Jardel. Técnico: Luis Felipe Scolari.

Grêmio x Ajax
Mundial Interclubes 1995

Esse time conquistou o Brasil, a América e bateu de frente com o imbatível Ajax mesmo com um jogador a menos. Nenhum desses caras era considerado grande coisa antes de encaixar nesse time, mas todos marcaram história pelo Grêmio e por outros times depois. E o mestre desse time era Luis Felipe Scolari, que já tinha sido campeão pelo humilde Criciúma. Da cabeça desse ex-zagueirão grosso saiu o que eu considero o formato mais simples e eficiente para um time de futebol. Tenho certeza que ele não foi o primeiro a montar esse esquema, mas foi isso que eu vi. Não tem mistério e cada peça tem exatamente uma função. Não exige nada de extraordinário, além do que já se espera de um jogador em cada posição. Vamos dissecar cada posição desse 4-4-2 que me trouxe muitas alegrias.

DEFESA

Goleiro: o camisa 1, guarda-metas, o paredão. Impossível um time ser vencedor sem ter um goleiro que inspire confiança nos seus colegas e meta medo nos atacantes. Danrlei inspirava heroismo, suava Grêmio, ia para a briga (literalmente) pelo time. E defendia muito. Saiu da base e ficou dez anos no time. Tivemos bons goleiros, mas só Marcelo Grohe conseguiu repetir a história, e deu no que deu. É para isso que o goleiro está lá: não tomar frangos e fazer milagres.

Danrlei!

Zagueiros: muito simples. Tem um zagueiro habilidoso (camisa 4) e um que só sabe dar chutão (camisa 3). E o mais importante: os dois precisam saber quem é quem. Fazer gol em escanteio também faz parte do pacote. Adilson e Rivarola, Mauro Galvão e Marinho, Geromel e Kanneman. Não tem o que inventar, simples e eficiente. E levantam taças.

Laterais: um defende mais e o outro tem liberdade para atacar. O Roger em dez anos no Grêmio fez 4 gols. Praticamente um terceiro zagueiro. Do outro lado, um cara que chega na linha de fundo e cruza com qualidade. E que qualidade tinha aquele paraguaio! Normalmente, esse lateral ofensivo também é um dos cobradores de falta do time. Roger e Arce, Rubens Cardoso e Anderson Lima, Marcelo Oliveira e Edilson. Camisa 6 joga na esquerda e o 2 na direita.

MEIO CAMPO

Volantes: marcadores, mas que conseguem pelo menos iniciar uma jogada. A diferença entre o Dinho e o Goiano era que o segundo volante (camisa 8) pedia desculpas depois de bater. Não precisa chegar a tanto, mas tem que chegar junto. Ser a primeira linha de defesa e conseguir tempo para a zaga se organizar. Também são aqueles que rodam a bola para começar o ataque. No Grêmio, normalmente o capitão é esse primeiro volante, o xerifão (camisa 5). Dinho e Goiano, Eduardo Costa e Tinga, Maicon e Arthur.

Meias de armação: não tem essa de 1 atrás dos atacantes, isso facilita a marcação do adversário. Um pelo lado direito e outro pelo esquerdo. Uma opção é o destro jogando na esquerda e um canhoto na direita, para poder cortar para dentro e chutar. Principal arma é a troca de passes entre os dois ou a triangulação com os laterais. E tem que gostar de fazer gol. Abriu espaço, tem que chutar. O mais habilidoso ostenta a camisa 10 e o outro leva a 11. Carlos Miguel e Arilson, Tcheco e Diego Souza.

ATAQUE

Ponta: pode escolher um dos lados ou ficar se mexendo. A função desse cara é dar opções para os meias e fazer a bola chegar no centroavante. Se não tiver esse centroavante, podem ser dois pontas, mas tem que ir para cima da zaga e encarar o goleiro. Não tem essa de falso nove, é camisa 7: tem que chegar de frente pro gol com a bola, não ficar de costas pro goleiro. Paulo Nunes, Luis Mário, Carlos Eduardo, Pedro Rocha e Éverton.

Centroavante: só tem uma preocupação – colocar a bola pra dentro. Na pior das hipóteses, tem que gerar um perigo de gol e meter medo nos zagueiros. Está em falta no mercado e são poucos os que realmente podem ser chamados de centroavantes. Não precisa driblar, nem fazer jogada bonita. Tem que fazer gol. Só. Mais desengonçado que o Jardel é difícil encontrar, mas foi artilheiro em todos os lugares que passou. A lista aqui é de qualidade discutível, mas a função deles não. Legítimos camisa 9:  Jardel, Christian, Tuta, André Lima, Jael…

Qualquer time que eu vejo jogando (agora, Bahia x Atlético-BA, pelo Baiano) vai ser comparado com isso aqui. 4-4-2, simples, sem frescura. Pode mudar o número na camiseta, mas eu sempre vejo a função do jogador entre o 2 e o 11. Os jogadores têm seus papeis muito bem definidos, sem invenção ou firula. Em um time bem organizado, fica mais fácil a entrada de um reserva, porque cada um sabe exatamente o que fazer.

Entre 2001 e 2002, teve uma fase 3-5-2, com o primeiro volante virando o terceiro zagueiro e os dois laterais liberados para atacar. Sobravam três no meio campo, normalmente com um meia avançado e dois volantes adiantados. Foi uma fase passageira, mas que rendeu uma Copa do Brasil para o Grêmio e uma Copa do Mundo para o Brasil.

Desde que me conheço por gente, foram times nesse 4-4-2 que eu vi jogando bem e ganhando. Até que chegou 2016 e o time do Renato encaixou e desmoronou tudo o que eu sabia de futebol…