A culpa é do meu pai.

Senta aí e fica quieto.

Futebol sempre fez parte da minha vida. Uma das minhas memórias mais antigas é ir para a escolinha de futebol de salão Bola-bola, no final da minha rua, junto com meu irmão. Salão mesmo, com bola pesada e goleiro que não podia sair da área. Todos os guris que eu conhecia iam para alguma escolinha. Era tudo uma grande brincadeira, mas eu treinava passe, chutava no alvo pintado na parede até acertar. Por um tempo joguei no gol, de aparelho nos dentes. Quantas vezes não cheguei em casa com um sorriso marcado de sangue…

Também ia ver meu pai jogar com os amigos toda terça-feira, lá no Bigode. (Mudaram de quadra, mudou a velocidade do jogo, mas a tradição continua viva por quase quarenta anos.) Enquanto eles jogavam, as crianças batiam bola e corriam de um lado pro outro no ginásio. De vez em quando vinha um grito pedindo para que a gente parasse de fazer bagunça.

Jogando bola ao lado do futebol
Criança quer jogar!

O primeiro jogo que eu me lembro de ver foi um jogo do Brasil na Copa de 90 em um posto de gasolina, só eu e meu pai, perto de um sítio que meus pais compraram e que tinha um campinho de futebol! A partir daí, era futebol todo final de semana e durante as férias inteiras! Vários amigos foram feitos porque a criançada pedia para jogar comigo e com meu irmão. Mas também teve treinamento. Lembro do pai, debaixo das traves, jogando a bola para eu cabecear. “Só os profissionais treinam isso e pode fazer diferença em qualquer jogo”.  

Pensando agora, acho que o momento que o futebol realmente me capturou foi na Copa de 94. Chegava correndo em casa porque os jogos passavam ao meio dia. Completei o álbum, que está perdido aqui em casa em algum lugar, e vi coisas que me marcaram até hoje. Maradona sendo acompanhado para o antidoping, Roger Milla dançando depois do gol, Oleg Salenko fazendo 5 gols no mesmo jogo e o maestro Hagi fazendo miséria. Parreira e Zagallo comandando desde Dunga até Romário, com aquele jogo de 4 de julho, a partidaça contra a Holanda, o baixinho entre os gigantes suecos e o sofrimento dos penâltis. Todos os corações do mundo, e o meu com certeza nunca mais seria o mesmo.

Gol da Nigéria! E olha essa camisa…

Menos de um mês depois do Tetra e eu encarava outra final. Minha irmã percebeu como eu estava enlouquecido vendo os jogos e perguntou para alguns amigos dela se eu podia ir num jogo com eles. Lá fui eu, um piá de 12 anos de idade, acompanhando meia dúzia de adultos (ok, tinham 18 anos) para meu primeiro jogo no Olímpico! Copa do Brasil, Grêmio x Ceará. O estádio ficava perto de casa e fomos caminhando e nos juntando à multidão que chegava até o estádio. Cinquenta mil tricolores e eu era um pontinho azul ali no meio. Nunca vou me esquecer da sensação de subir a rampa da Social e ver aquele tapete verde surgindo lentamente na minha frente. Ainda mais com um gol do Nildo, vulgo Bigodão, com menos de cinco minutos de jogo! E a comemoração foi bem na minha frente! Grêmio Campeão!

No ano seguinte, foi a vez da Libertadores. Agora eu era a mascote do grupo e levava sorte nos jogos. Eu e um amigo meu fomos em todos os jogos, até a grande final! Que timaço que a gente viu. Encarou de frente o grande Ajax e só perdeu nos pênaltis. A partir daí, foram diversas Libertadores, vários Brasileiros e até Série B… Times vencedores, times realmente podres e outros simplesmente esforçados, mas sempre Grêmio. Foi no Olímpico que eu vi Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Adriano e Romário. Dava para ver só pelo toque na bola como esses caras eram diferenciados

Enquanto isso, jogava bola sempre que podia. Na escolinha, na Educação Física, na escola depois da aula e nos jogos com os amigos. Tive minha fase de zagueiro, depois goleiro, mas me achei mesmo no ataque. Seguindo os passos do meu pai, passei mais de dez anos jogando com os mesmos amigos. Nosso lema sempre foi: “jogamos como nunca, perdemos como sempre”. Muita diversão, muitos gols e também quatro pinos na perna no meio do caminho…

Com a TV a cabo, sempre tinha algum jogo passando na telinha. Deixei de ver só os jogos da Província de São Pedro e fui apresentado aos estilos de jogo do Brasil e do mundo. Os times da Europa não eram mais os monstros que somente apareciam para encarar os sul-americanos no Mundial. Até hoje, se estou de bobeira em casa, a televisão está ligada em algum jogo (agora, Salgueiro x Central, pelo Pernambucano). Claro que tenho preferência pelo meu Grêmio, mas eu gosto mesmo de futebol. Estaduais, copas, amistosos, várzea, sub-17, máster, tem bola rolando, estou vendo. Quando eu operei o ligamento do joelho (rompido num jogo de futebol 7, dois pinos), a enfermeira me viu acordando da anestesia e perguntou se eu precisava de alguma coisa. Eu perguntei: começou o jogo? Era Athletico-PR x São Paulo, na final da Libertadores, e já estava com 10 minutos de jogo…

Olho na TV
Chega aí e vê o jogo

Nunca vou me esquecer da final entre Inter x São Paulo. Meu pai olhou para mim e falou: “eu sentei do teu lado enquanto teu time ganhava tudo. Agora é a tua vez. Senta aí e fica quieto.” Sim, ele é colorado. E sim, eu comemorei o gol do Tinga. Assistimos Inter x Barcelona lá no sítio, com Bombril na ponta da antena e mais chuvisco do que imagem. Eu pulei abraçado com o meu pai quando o Gabiru fez o que ninguém esperava. Eu estava lá com ele, do mesmo jeito que ele estava comigo quando eu liguei antes do Náutico bater o pênalti na Batalha dos Aflitos, falando que o Grêmio ia ficar na Série B, e ele me disse para ter calma porque ele sabia o que a pressão pode fazer com um jogador.

Fui visitar meus pais nesse último carnaval. E na TV, Real Madrid x Barcelona. 

Um comentário em “A culpa é do meu pai.”

  1. Amei as palavras! Como tu escreve bem! Sim, eu sei que é sua verdadeira paixão. Eu sempre amei e amo ver vc jogar e ensinar para os outros como que faz gol!
    Nunca vou esquecer dos 7 gols na frente da sogra!kkk
    Beijo

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